Por Simone de Piano
Especialista em neurociência aplicada à performance humana, mentora e treinadora de líderes, formada em Administração e Empresas pela PUCSP
Tem dias de trabalho que termino fisicamente cansada, mas internamente muito disposta. É uma sensação curiosa, porque o corpo pede descanso, enquanto a mente continua criando, conectando ideias e querendo ir além. Foi em um destes dias que me dei percebi a existência de uma diferença enorme entre estar cansada do trabalho e estar cansada porque você se entregou a algo que ama.

Tenho vivido isso com frequência. Depois de um dia intenso, de uma conversa importante, de um treinamento, de uma palestra ou de um projeto que exigiu muito de mim, sinto claramente o esforço físico. Ao mesmo tempo, continuo pensando no que poderia melhorar, no que ainda quero construir, nas ideias que surgiram ao longo do caminho. Não existe aquela sensação de querer fugir. Existe, na verdade, uma vontade de continuar mesmo sabendo que é hora de descansar.
Isso me fez refletir sobre a forma como falamos do cansaço. É claro que excesso, ausência de limites e falta de recuperação podem adoecer. E isso precisa ser levado a sério. Mas nem todo cansaço nasce do esgotamento emocional. Existe também o cansaço de quem esteve completamente presente, concentrado e envolvido com algo que tem significado. O corpo sente a intensidade, mas a mente não está desconectada. Muitas vezes, acontece o contrário: ela está profundamente engajada.

Na liderança, vejo essa diferença de forma muito clara. Liderar exige energia. Exige estar disponível, tomar decisões, sustentar conversas difíceis, desenvolver pessoas, lidar com conflitos e, muitas vezes, continuar acreditando quando os resultados ainda não apareceram. Quando tudo isso é vivido apenas como obrigação, o peso tende a aumentar consideravelmente. Mas, quando existe propósito, a relação com esse esforço muda. Você entende por que está fazendo aquilo e, principalmente, para quem aquilo importa.
Talvez seja por isso que eu acredite tanto em trabalhar com paixão. Não falo daquela paixão romantizada, em que todos os dias são inspiradores e tudo parece fácil. Falo de uma conexão verdadeira com o que se faz. Da vontade de aprender mais, de melhorar, de criar, de contribuir. Da sensação de que o trabalho não é apenas uma agenda cheia, mas uma forma de colocar algo de nós no mundo.
Com o tempo, também fui entendendo que propósito tem muito a ver com legado. Resultados são importantes, metas importam e crescimento importa. Mas algumas das coisas mais valiosas que construí ao longo da minha trajetória não cabem em um relatório. Elas estão nas pessoas. Em alguém que ganhou mais confiança, em um líder que passou a enxergar sua equipe de outra forma, em uma decisão que mudou um caminho, em uma conversa que continuou produzindo efeito muito depois de terminar.

Hoje, quando encerro um dia cansada, procuro observar não apenas o quanto trabalhei, mas como me sinto por dentro. Se o corpo pede descanso, mas a mente continua interessada, curiosa e conectada com o que estou construindo, eu entendo que esse cansaço tem outro significado. Descansar continua sendo necessário e cuidar dos limites também. Mas existe uma diferença profunda entre terminar o dia esvaziada e terminar o dia cansada, porém realizada. Talvez seja isso que o propósito faça com o trabalho: ele não elimina o esforço, mas dá sentido à energia que escolhemos colocar nele.
Talvez uma das maiores mudanças de perspectiva aconteça quando percebemos que parte do cansaço e dos problemas de hoje, nasceu de sonhos antigos. Muitas das responsabilidades que agora exigem tanto de nós um dia foram desejos, planos e metas que pareciam distantes. Lembrar disso não diminui a necessidade de descanso, mas devolve significado ao esforço. Há um tipo de gratidão silenciosa em reconhecer que, de alguma forma, chegamos a lugares que um dia apenas imaginamos.

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