Vista urbana

Com três Kikitos, produção dirigida por Grace Passô conquista o prêmio de Melhor Filme; “Feito Pipa” também se destaca em uma edição marcada por novos olhares, grandes interpretações e homenagens a nomes que ajudaram a construir a história do audiovisual nacional

Por dez dias, Gramado voltou a viver no ritmo do cinema. O movimento diante do Palácio dos Festivais, os artistas atravessando o tapete vermelho, as sessões, os debates e os encontros entre realizadores transformaram novamente a cidade da Serra Gaúcha em ponto de encontro da produção audiovisual brasileira.

Na noite deste sábado, 22 de agosto, porém, os holofotes se voltaram para dentro do Palácio dos Festivais. Era hora de descobrir quem levaria para casa o Kikito, uma das estatuetas mais emblemáticas do cinema nacional.

E o principal anúncio da noite colocou “Nosso Segredo”, de Grace Passô, no centro da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Filme Longa-Metragem Brasileiro, “Nosso Segredo”, de Grace Passô, entregue pela analista de patrocínios culturais da Petrobras Elen Soares | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O longa conquistou o Kikito de Melhor Filme, além dos prêmios de Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório.

Rodado em Belo Horizonte, o filme parte da peça Amores Surdos, escrita pela própria Grace Passô, e acompanha uma família negra tentando reorganizar a vida depois de uma perda recente. Cada integrante enfrenta o luto à sua maneira, enquanto silêncios e dificuldades de comunicação aumentam as distâncias dentro da própria casa.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte De Longas-metragens Brasileiros, Wilssa Esser e Lucas Osório, por “Nosso Segredo”, de Grace Passô | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

A escolha encerra uma edição na qual os filmes apresentados em Gramado voltaram a mostrar como o cinema pode transformar questões íntimas em discussões muito maiores sobre a sociedade brasileira.

“Feito Pipa” conquista público e júri

Se Nosso Segredo levou o principal Kikito da noite, outro filme saiu de Gramado com uma coleção importante de reconhecimentos.

“Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, conquistou o Kikito de Melhor Direção, além de garantir a Teca Pereira o prêmio de Melhor Atriz e a Lázaro Ramos o de Melhor Ator Coadjuvante.

54º Festival de Cinema de Gramado – Prêmio Júri Popular Longas-metragens Brasileiros para “Feito Pipa”, de Allan Deberton, entregue pelo Diretor Geral do Canal Brasil | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O longa também recebeu o prêmio do Júri Popular, uma distinção especialmente simbólica porque traduz a escolha dos espectadores que acompanharam a mostra.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Ator Coadjuvante De Longas-metragens Brasileiros, para Lázaro Ramos, por “Feito Pipa”, de Allan Deberton, entregue pela apresentadora Renata Boldrini | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

A combinação de reconhecimento do júri e aprovação popular fez de Feito Pipa um dos grandes destaques da edição.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Atriz De Longas-metragens Brasileiros, por unanimidade, para Teca Pereira, por “Feito Pipa”, de Allan Deberton, entregue pela atriz Maria Fernanda Cândido | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Dois atores dividem o Kikito

Uma das particularidades da premiação deste ano foi a decisão de dividir o Kikito de Melhor Ator.

José Loreto, pela interpretação em Chorão: Só os Loucos Sabem, e Christian Malheiros, por Justino: Nos Bastidores do Reino, foram reconhecidos na mesma categoria.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Ator De Longas-metragens Brasileiros para José Loreto e Christian Malheiros, por “Chorão: Só Os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes e “Justino – Nos Bastidores do Reino”, de José Eduardo Belmonte, entregue pela curadora de longas metragens brasileiros e documentais, Ana Flávia Cavalcanti | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Loreto assumiu o desafio de interpretar Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr. e um dos personagens mais marcantes da música brasileira das últimas décadas.

Já Christian Malheiros foi premiado por Justino: Nos Bastidores do Reino, produção que acompanha a trajetória de um jovem dentro do universo de uma igreja neopentecostal.

Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O mesmo filme recebeu ainda o Kikito de Melhor Montagem, assinado por André Finotti e José Eduardo Belmonte.

“Leite em Pó” conquista a crítica

Outro nome que deixou Gramado fortalecido foi “Leite em Pó”, de Carlos Segundo.

O longa conquistou o prêmio de Melhor Filme pelo Júri da Crítica, além do Kikito de Melhor Roteiro, para Carlos Segundo e Rafael Copel, e de Melhor Desenho de Som, para Waldir Xavier.

54º Festival de Cinema de Gramado – Prêmio Júri Da Crítica Longas-metragens Brasileiros para “Leite em Pó”, de Carlos Segundo, entregue pelo júri composto por Flávia Guerra, Pâmela Eurídice, Rafael Valles, Simone Zucolotto e Victor Souza | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Naruna Costa recebeu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em Pele de Rinoceronte.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Atriz Coadjuvante De Longas-metragens Brasileiros, Naruna Costa, por “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia, entregue pela atriz e jurada, Vitória Strada | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Na categoria documental, o vencedor foi “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, dirigido por Susanna Lira, produção dedicada a revisitar a trajetória de um dos grandes nomes da música popular brasileira.

54º Festival de Cinema de Gramado – Melhor Filme Longa Documental Brasileiro, “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira, entregue pelo representante do governador do estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o senhor André Crizúm | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

O Prêmio Especial do Júri foi concedido ao curta Revelação, de Gabriela I. Gaia.

54º Festival de Cinema de Gramado – Equipe do curta-metragem brasileiro “Revelação” de Gabriela Gaia | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Uma edição que também celebrou trajetórias

O Festival de Gramado não se constrói apenas em torno da competição. Uma de suas características históricas é reconhecer quem ajudou — e continua ajudando — a construir o audiovisual brasileiro.

A 54ª edição reservou alguns de seus momentos mais simbólicos justamente para essas homenagens.

Selton Mello e Maria Fernanda Cândido receberam o Kikito de Cristal, reconhecimento destinado a profissionais com trajetória de destaque e projeção internacional.

54º Festival de Cinema de Gramado – Homenageada com Kikito de Cristal, atriz Maria Fernanda Cândido | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Selton chegou a Gramado em um momento particularmente expressivo da carreira. Ator, diretor e produtor, acumula mais de quatro décadas de trabalho e atravessa uma fase de forte projeção internacional do cinema brasileiro.

54º Festival de Cinema de Gramado – Homenageado com Kikito de Cristal, ator Selton Mello | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Andréa Beltrão recebeu o Troféu Oscarito, tradicional homenagem concedida pelo Festival a grandes atores e atrizes do cinema nacional.

Marcos Curado recebeu o Troféu Cidade de Gramado.

54º Festival de Cinema de Gramado – Homenageado com Troféu Cidade de Gramado, ator Marcos Caruso | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Mais do que momentos protocolares, as homenagens ajudam a explicar uma característica que atravessa a história do evento: Gramado procura colocar lado a lado quem está começando, quem está produzindo o cinema do presente e aqueles que construíram parte importante de sua memória.

Gramado e o cinema: uma relação de mais de cinco décadas

Quando o Festival começou, em 1973, dificilmente seria possível imaginar a dimensão que aquela iniciativa alcançaria.

A primeira edição consagrou Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Desde então, mais de mil Kikitos já foram entregues a profissionais do audiovisual.

54º Festival de Cinema de Gramado – Palácio dos Festivais | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Ao longo dessa trajetória, nomes como Fernanda Torres, Sônia Braga, Marieta Severo, José Wilker, Othon Bastos e muitos outros passaram pelo Festival.

Internacionalmente, artistas e cineastas como Pedro Almodóvar, Javier Bardem, Juan José Campanella, Marisa Paredes e Norma Aleandro também fazem parte dessa história.

54º Festival de Cinema de Gramado – Decoração do Festival | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

O Festival acompanhou diferentes momentos do cinema brasileiro: períodos de expansão, crises, transformações tecnológicas e mudanças profundas na maneira como os filmes são produzidos, distribuídos e consumidos.

Gramado permaneceu.

E talvez esteja justamente aí uma parte importante de sua força.

Muito além do tapete vermelho

Para quem observa o Festival apenas pelas fotografias das celebridades, é fácil associá-lo exclusivamente ao glamour.

Mas o evento acontece também longe dos flashes.

A programação de 2026 incluiu mostras competitivas, documentários, produções gaúchas, curtas-metragens, debates com realizadores, sessões especiais, atividades educativas e ações de formação de público.

54º Festival de Cinema de Gramado – Debate Filme de Encerramento – “La Perra”, de Dominga Sotomayor – Produtor Rodrigo Teixeira | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Houve ainda sessões de Cinema nos Bairros e a Mostra Infantil Petrobras, levando produções audiovisuais para além do Palácio dos Festivais.

54º Festival de Cinema de Gramado – Cinema nos Bairros – Sessão 6 Mostra Infantil Petrobras – EMEF Nossa Senhora de Fátima | Foto oficial: Ticiane da Silva/Ag.Pressphoto

Na área da acessibilidade, filmes das mostras competitivas contaram com recursos como audiodescrição, Libras e legendas descritivas, ampliando as possibilidades de participação do público.

É nessa combinação entre celebração, formação, indústria e acesso que o Festival encontra uma função que ultrapassa a simples entrega de prêmios.

Quando o cinema encontra o turismo

Em Gramado, cinema e turismo construíram uma relação difícil de separar.

Durante o Festival, o tapete vermelho deixa de ser apenas a entrada de uma sala de exibição e passa a fazer parte da própria experiência turística da cidade.

54º Festival de Cinema de Gramado – Praparativos – Palácio dos Festivais | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Visitantes acompanham a chegada dos artistas, circulam pelo centro, fotografam o Palácio dos Festivais e ocupam restaurantes, hotéis, lojas e espaços de entretenimento.

A própria organização do Festival reconhece o evento como um dos responsáveis por projetar a imagem de Gramado nacionalmente e por gerar significativa cobertura espontânea para o destino.

54º Festival de Cinema de Gramado – Abertura do Tapete Vermelho – Palácio dos Festivais | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Essa talvez seja uma das maiores particularidades do Festival de Gramado: poucos eventos brasileiros conseguiram associar de maneira tão duradoura uma manifestação cultural à identidade de uma cidade.

O Kikito tornou-se símbolo do cinema, mas também símbolo de Gramado.

Os vencedores da mostra de longas brasileiros

A premiação principal da 54ª edição ficou assim:

Melhor Filme: Nosso Segredo

Melhor Direção: Allan Deberton, por Feito Pipa

Melhor Ator: José Loreto, por Chorão: Só os Loucos Sabem, e Christian Malheiros, por Justino: Nos Bastidores do Reino

Melhor Atriz: Teca Pereira, por Feito Pipa

Melhor Roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel, por Leite em Pó

Melhor Fotografia: Wilssa Esser, por Nosso Segredo

Melhor Montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte, por Justino: Nos Bastidores do Reino

Melhor Trilha Musical: Otávio de Moraes, por Chorão: Só os Loucos Sabem

Melhor Direção de Arte: Lucas Osório, por Nosso Segredo

Melhor Atriz Coadjuvante: Naruna Costa, por Pele de Rinoceronte

Melhor Ator Coadjuvante: Lázaro Ramos, por Feito Pipa

Melhor Desenho de Som: Waldir Xavier, por Leite em Pó

Melhor Documentário: Gonzaguinha, da Maior Liberdade

Prêmio Especial do Júri: Revelação, de Gabriela I. Gaia

Júri da Crítica: Leite em Pó

Júri Popular: Feito Pipa

O que fica depois que o tapete vermelho é recolhido

Todo festival de cinema termina duas vezes.

A primeira acontece quando as luzes se acendem depois da última sessão. A segunda, quando os artistas vão embora, o tapete vermelho é retirado e a cidade retorna gradualmente à sua rotina.

Mas os filmes permanecem.

Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Alguns seguirão para outros festivais. Outros chegarão às salas comerciais ou às plataformas de streaming. Atores e diretores que talvez ainda sejam pouco conhecidos poderão ganhar espaço a partir da visibilidade conquistada aqui.

Foi assim ao longo de mais de cinco décadas.

Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Em 2026, Nosso Segredo deixa Gramado carregando o Kikito de Melhor Filme. Feito Pipa sai com o reconhecimento do público e do júri. Outros títulos levam prêmios, críticas, contatos e a exposição conquistada durante o Festival.

54º Festival de Cinema de Gramado – Palácio dos Festivais | Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Gramado, por sua vez, guarda novamente algo que não cabe em uma estatueta: a capacidade de fazer com que, durante alguns dias do inverno da Serra Gaúcha, o Brasil olhe para uma pequena cidade do Sul para descobrir quais histórias o seu cinema está contando.

Fontes: Festival de Cinema de Gramado, CNN Brasil e coberturas jornalísticas da 54ª edição.

Foto capa: Edison Vara/Ag.Pressphoto